sábado, novembro 18, 2006

Elixir da juventude



Hoje conheci um cara
de noventa e dois anos de idade.
Alegre
jovial
saltitante
feliz.
Uma pergunta:
que te faz tão jovem?
qual o elixir mágico da alegria de viver
e se mostrar tão feliz?
Simples, ele disse.
É só ficar de olho nas meninas
e segui-las
como se os sonhos
se localizassem em suas curvas
e nos seus caminhares.

Lições de sabedoria!

quinta-feira, novembro 09, 2006

BARREIRA E FENDAS II



Função de artista:
criar universos paralelos
inusitados e instigantes
convites à imaginação e devaneios
com passagens indizíveis
através de fendas
invizíveis
a quem nõa tem olhos
de ver o indefinível.

Mas as fendas existem
na curvatura dos universos
nas ranhuras das peças
no caminho das luzes
nas veredas das frases
nas margens das músicas
entre formas suntuosas
nos cortes das superfícies ilimitadas
nos pontilhados negros dos desenhos
nas esculturas cravadas no espaço
no movimento imprevisível dos corpos.

Sem fendas não tem arte
nem artista.
Nas fendas das artes
penetra o insondável.
Sem fendas não tem ciência
nem cientista.
Nas fendas das ciências
penetra o observável
ampliando rupturas
nos hímens permeáveis
das barreiras
outrora intransponíveis.


quinta-feira, outubro 26, 2006

Tesão de aprender



Tem coisas
que prefiro não saber
como fazer.

Se as sei,
faço-as superficialmente
automaticamente
sem pensar
em como fazer.


Se não as sei
faço-as indo ao fundo
de cabeça
para aprender a fazer
bem feito.

Aprender dá tesão.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Maldição latino-americana



Viver em lugar nenhum
ter senso de deslocamento
ser estrangeiro em qualquer lugar
é maldição latino-americana.

Viver é adaptar-se à solidão
transigir os afetos
transceder os solipsismos
fugir dos ruídos internos
buscar o silêncio dos amálgamas
das cáries dentárias
criar verosssimilitudes no cotidiano
singularidades no acaso.


Silêncio em cores



Silêncios plásticos
eloqüência dos vazios
vocação para o deserto:
aprendizagens com o envelhecer.

Aprender é mudar de comportamento
Morosidade e passos lentos
ganhos da terceira idade
na aprendizagem da convivência
com a lentidão dos calcanhares
com códigos de palavras não ouvidas
com a simbologia dos entreolhares.

Conviver com os silêncios
é sonhar em cores sérpia:
ouvir apenas os quereres
vindos do interior da epiderme
ou os rumores desenhados
nas contra-luzes das rugas
no rosto vincado de sabedoria.

Todos os mistérios vêm das sombras,
é na penumbra que nos desnudamos.
Tom pastel dos silêncios
brinca na memória dos bem vividos.

Sem cartas


Não posto mais cartas:
as envio por correio eletrônico.
Cartas para amigos da Europa
viajam dez dias.
Na perda desta sincronicidade
talvez mudemos de idéia
ou mudemos de humor
ou mudemos de cara.
Não carrego a mesma cara sempre.
Crescem-me o bigode
a barba
o cavanhaque.
Corto os cabelos
fico uma semana sem banho.

Cartas enviadas pelos correios
não contam aos amigos
estas variações de visagem
e de personalidade.


OITENTA ANOS



Pergunta para minha mãe:


Quando a gente oitenta

A gente se tenta


Ou se senta?