segunda-feira, maio 21, 2007

HORTÊNCIAS SOB CHUVA ARTIFICIAL


As gotas são artificiais: chuvas que provoquei ao amanhecer. A luz do sol é natural. Já marcavam umas oito horas no relógio dos dias de quase inverno. Ah, eu sabia! ainda é outono. O que não quer dizer muita coisa nesta cidade das montanhas. Não temos inverno. O calendário de apenas três estações, fazendo diferença com boa parte do mundo, civilizado ou não (existe realmente uma diferença grande entre mundos civilizados e não civilizados?) não nos deixa nem um pouco diminuídos. A ausência de inverno nos presenteia com uma primavera mais longa. Com flores ao longo dos anos. Este pé de hortências me presenteia flores lilases esvaecendo aos poucos por longos períodos. Além disso, o sol de metade do ano me abastece com belos pôr-de-sóis, lindos amanheceres, noites estreladas, um pouco de fumaça no horizonte (isso por conta de estúpidas queimas de vegetação e lixo). E as chuvas da outra metade do ano garante a umidade necessária aos pobres solos tropicais. Quero olhos de ver coisas tão belas e sensibilidade para percebê-las, e fotografá-las.

quarta-feira, maio 16, 2007

OLHAR SOBRE FLOR Nº 01

Esta não é uma imagem de arquivo. Ela existe em meu jardim. Começa seu processo de degradação natural, como se pode ver em suas pétalas mais centrais. Ainda posso observa-la, todos os dias, logo depois do nascer do sol. Em um momento do dia, ela tem essa cor, essa tonalidade, esse brilho que a faz eterna, embora seja uma flor no ocaso de sua existência. Luz e sombra e seus encantos naturais. Ou meu olhar através das lentes (fenda número 5)colocam um pouco de mim nesta imagem.




quarta-feira, maio 09, 2007

SOU VIL, SOU MIL



mil loucuras cometo
cada dia
que não publico
um poema
uma fala inválida
um som preso na garganta
uma nota solta no espaço.
há dois meses sou louco
preso nos castelos de palavras
e de flâmulas de um time perdido.
sou fraco
com topete grandioso.
sou vil
com vontade
de ser magnânimo.
sou mil
embora quase nada.




segunda-feira, março 19, 2007

FENDAS: TODA MEDIDA É UMA FARSA

FENDAS NÚMERO I

Medidas em sistemas do universo:
Temperatura com termômetros,
Velocidades com velocímetros
Voltagens com voltímetros
Vazão de fluidos com hidrômetros
Fluxo sangüíneo com catéteres
Aneurismas com aparelhos de ressonância
Outras medidas com outras sondas.
Problemas inerentes: alteração do estado do sistema
Entre sondas e incertezas nas medidas
- realidade e modelização.
Realidade inatingível, reconhecimento impossível:
Interação entre sujeito (através da sonda)
E objeto (sistema do universo) altera ambos
Sujeito e objeto se reconstroem.
Saída estratégica: modelizar o visível e o mensurável
Teorizar sobre propriedades intrínsecas.
Toda medida usa uma sonda
(o olhar é uma sonda)
Em toda observação uma sonda penetra uma fenda
(o outro olhar é outra fenda
através da qual se quer conhecer a alma).
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO II

Difração da radiação:
Luzes policromáticas
Luzes monocromáticas
Enveredam-se em frestas e fendas
Naturais ou artificiais
Buscam um caminho além das paredes
Espalham-se atrás de barreiras e fendas
Iluminam onde se esperavam sombras
Monocromos ou policromos onde se imaginava negro.
Problemas inerentes: tamanho das fendas e das (s)ondas
Exigência de compatibilidades
– luzes e fendas, transformação.
Toda fenda é penetrável:
Mínima que seja
Há sempre uma radiação que a perpassa.
Toda barreira é violável:
Matéria é somatório de fendas
Organizadas como redes, filtráveis.
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO III

Radiação de corpo negro:
Negros são comedores de luzes
Esponjas de todas as radiações.
Brancas, pardas, morenas, amarelas,
Ou inusitadas como vermelhas e azuis
Não importa a cor da luz penetrante
O corpo negro a absorve
E só devolve um tanto de calor.
Problemas inerentes: o negro seria invisível
Como observa-lo se ele devora a luz da observação
Como conhecê-lo se ele come a lanterna da razão?
- Inexistência do corpo negro ideal, simulação.
Criamos um objeto, esférico,
Portador de uma fenda
Espelhado por dentro
O denominamos negro.
Absorvedor de luz pela fenda
Irradiador de calor pela superfície:
Toda cor é um simulacro
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO IV

Buracos negros do universo
Grandes fendas da cosmologia
Grandes mistérios da astronomia
Grandes bocas que tudo ingerem:
Objetos, poeiras cósmicas, luzes.
Problemas inerentes: ingestão sem digestão
Acréscimo de peso, decréscimo de volume
Densidade infinita.
- Ausência de informação, especulação.
Que fossa densa é esta?
Buraco mais negro que o corpo negro
Grande absorvedor de matéria
Provocador de alucinações
Mundos paralelos e outros elos.
Toda investida é permitida
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO V

Produção de Imagens de mil cores:
Lentes também são fendas
Por onde passam mil luzes
Microscópios e telescópios
Luzes próximas, luzes distantes
Máquinas de filmar e de fotografar
Movimentos e silêncios
Magias das imagens
Em vinte e quatro quadros por segundo:
Cinema também é arte através das fendas?
Problemas inerentes: tecnologias de produção
De areias a vidros, de vidros a lentes
Trapaceiam os olhares
Enganam emoções e pensamentos
- movimentos e fendas, imaginação.
De micro matérias a naves espaciais
De morros uivantes a rios bravos
Dos negros de berger
Às contraluzes de salgado
De poemas holográficos à vídeo arte
Todas imagens mil palavras
Todas as farsas são bem medidas
Todas as fendas têm suas sondas
Toda medida é no mínimo uma farsa.

SOBRE FENDAS E BARREIRAS

A fenda não é a questão:
A fenda é o caminho
a vereda
a descoberta
o passo possível de ser seguido
a trilha a ser percorrida
apesar de toda imprevisibilidade
de caminhos desconhecidos
a serem desbravados.
A questão é a fronteira,
a barreira a ser transposta
o obstáculo (in)transponível.
Superação da barreira
exige esforço
transpiração
inspiração
limite e criação,
modelização
transformação
simulação
especulação
imaginação.
Arte, ciência e tecnologia
se abraçam.

FENDAS, BARREIRAS E MEDIDAS

Função de artista:
criar universos paralelos
inusitados e instigantes
convites à imaginação e devaneios
com passagens indizíveis
através de fendas
invisíveis
a quem não tem olhos
de ver o indefinível.
Mas as fendas existem
na curvatura dos universos
nas ranhuras das peças
no caminho das luzes
nas veredas das frases
nas margens das músicas
entre formas suntuosas
nos cortes das superfícies ilimitadas
nos pontilhados negros dos desenhos
nas esculturas cravadas no espaço
no movimento imprevisível dos corpos.
Sem fendas não tem arte
nem artista.
Nas fendas das artes
penetra o insondável.
Sem fendas não tem ciência
nem cientista.
Nas fendas das ciências
penetra o visível
ampliando rupturas
nos hímens permeáveis
das barreiras
outrora intransponíveis.
Toda medida é uma farsa
Toda farsa é bem medida
Farsa em boa medida
Refaço com imaginação
Em todas as fendas do universo
Com palavras
Tintas
Pedras
E sonhos.

terça-feira, março 13, 2007

OUSADIAS QUASE OUTONAIS



Ouso dizer
que atravessas os caminhos
por onde passo
nessas manhãs quase outonais.
Sol incendeia meus pensamentos
enche de calor certas frases:
- um dia ousarei te dizê-las.
Enquanto a chama da ousadia outonal não vem
cruzarei anonimamente tua silhueta,

soprarei
como leve brisa
teus ruivos cabelos.
Ouse bem.
Escute, enquanto caminhas,
palavras dos rios e dos ventos.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Sobre as metáforas

Objetivo das metáforas
é assustar pessoas:
dizendo que pode acontecer
algo muito pior
que aquilo que pode acontecer
ou acontecerá
de fato!

Azar dos poetas!

nem poeta nem gênio

Mostrei poemas
a um artista plástico amigo meu
radicado em Tiradentes
anos 90:
- Publique-os
e serás um poeta conhecido.
Reescreva-os
e serás um poeta genial.
Nem coisa nem outra
nem leitores
nem afagos da academia.
Continuo escrevendo como um besta
seguindo velhos institntos:
lufada de inspiração
caderno abre sozinho
tinta de caneta se derrama em letras.