sexta-feira, janeiro 06, 2012

CURTA 141


Disseram-me que eu morri.
Eu não sabia.
Telefonemas mantiveram-me informados
desse evento fúnebre.
Ninguém sabia do local
nem horário de meu crematório
(vale como registro:
quero ser cremado).
Por isso, não compareci.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

OBJETOS 34


Objetos para salvar janeiros chuvosos:
caiaque para navegar itapecirica
e deleitar sabores de uma divina;
capas para cobrir minha nuca
mantendo secas minhas neuroses;
botas que projetem minha pisadura
além da margem escura
das paixões e das amarguras.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

OBJETOS 33


Objetos com os quais recomeçar o ano:
bilhetes para aquele voo que não tomarei;
páginas escritas do livro que não publicarei;
partituras da música que não comporei;
pedras da estátua que não esculpirei;
tintas do quadro que não pintarei;
alimentos da dieta que não seguirei;
caderno novo para registros
de novidades que aprenderei
e de projetos que inacabarei;
agenda nova para anotações
de compromissos que assumirei,
de pessoas que conhecerei,
de lembranças daquelas que amarei
e de novos amigos que farei.
Objetos para a vida que viverei
até o dia em que amanhecerei janeiro.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

CURTA 140

Todos os dias, 
às três da tarde,
eu choro.
Hora esta,
Ella canta na rádio.

(para Ella)

segunda-feira, dezembro 26, 2011

CURTA 139


Práticas de sedução movem pêndulos.
Não apenas um terno bonito
com flor branca na lapela.
Não só o perfume francês
regando palavras doces.
Mais que estilo: exigência;
manutenção de um padrão de vida;
metodologia de alargamento espiritual. 
Sobrevivência.

(Para Lu)

sexta-feira, dezembro 23, 2011

OBJETOS 32


Objetos para usufrutos natalinos:
havana bebida em colherinha
para reinventar o pai;
tender em fatias finas
para renascer a mãe;
mangas ubá em pedaços
para aguçar o paladar;
flores brancas na lapela
para sedução em permanência.

OBJETOS 31


Objetos para deslumbramentos gastronômicos:
bacalhau demolhado em água corrente
avaliado em mil maneiras;
vinho bordeaux grand cru ligeiramente envelhecido;
castanhas portuguesas aquecidas ao forno;
mulher afremosentada, de fino paladar,
para deliciamentos em dueto.