Poesias urbanas, do cotidiano, da natureza das coisas, são temas do poeta. Seu universo poético varre, principalmente, os poemas curtos, incluindo haicais e aldravias, além de outros, sínteses de variadas inspirações filosóficas e mundanas.
domingo, setembro 10, 2017
RELEITURAS ROSEANAS 21
Todos deveriam contar sua história
pois modo de contar
depende do, único, olhar.
O olhar dela, madura,
tinha ou alegria divina
ou tristeza soturna
esmaecendo a quase belezura,
quase flor em luz noturna.
Olhar que não cala a ternura.
Essa, em monossílabos recomeça,
no tempo que finge que passa
trazendo saudade sem moldura,
apenas saudade, sem usura.
Porque o hoje se realiza,
no tempo que finge que passa?
Só o hoje a individualiza
para o amanhã que se argamassa.
Aí se reconta sua história
quando Amor surge a cavalo,
reorganiza sua íntima memória
faz de sua vida um regalo
e o tempo ainda finge que passa.
quinta-feira, setembro 07, 2017
URDUME
a trama que lhe cabia.
Ligava fios, cores,
desenhos do tecido acabado,
e o urdume se fazia
e se refazia
a cada movimento no tear.
O que Clara não sabia,
mas intuitivamente percebia,
era que ali também se traçava
o urdume de seu dia a dia.
terça-feira, setembro 05, 2017
RELEITURAS ROSEANAS 20
Não me pergunte
que eu lhe respondo;
não me olhe
que eu lhe miro;
não me fale
que eu lhe escuto -
desfalo em respostas.
Aconchegue-se que eu lhe asssunto.
Defino sem declarar,
cismo em indefinições.
Palavras maiores que declarações:
cuidado com suas palavras,
elas contam mais que apresentam.
O dito não volta desdito,
o escrito se decodifica
em citações preambulares.
Forças aleatórias
a serviço do sensível.
Não me olhe
que eu lhe escuto;
não me responde
que eu lhe pergunto;
não me assunte
que eu lhe defino.
Defino sem declarar,
a serviço do sensível.
sábado, agosto 05, 2017
NOTAS DE LEITURA EM REVISTA DE BORDO 25
1. Transformação se tornou uma espécie de mote para o futuro. Palavra em moda. Mas é bom saber que transformação significa adeus ao ponto de partida. Sem retorno. Transformar-se é tornar-se outra coisa, outra pessoa, viver em outro mundo, com outras possibilidades. Outras escolhas. Viver é isso: transformar-se continuamente, já que o passado não volta.
2. Outra palavra da moda é empoderar-se. A aprendi uns vinte anos atrás, ainda em inglês (empowerment) e a usei em um trabalho de tese. Empoderar-se significa assumir o poder sobre si mesmo, sobre sua própria vida. Empoderar-se para se transformar. Melhor ainda. Empoderar-se é se transformar.
3. O Brasil é vice-campeão mundial em implantes dentários e caminha para a liderança. A campanha publicitária do fabricante consiste em “trazer de volta o sorriso para quem precisa”. Oba! Basta trocar os dentes para ser feliz! Ou, se você é feliz e gosta de sorrir, sorria mais bonito!
4. Diversidade: mais uma palavra da atualidade. Somos diversos, somos únicos, muitos querem ser igual (a qualquer coisa outra – impossível). Assumir sua identidade diversa é empoderar-se. Para transforma-se. Ufa!
5. Identidade, por favor. Não basta olhar na minha cara para saber quem eu sou. Preciso apresentar um cartão plastificado com um número e um retrato. Então o cara olha minha cara e compara com a cara da carteira de identidade. E verifica se o nome do cartão é o mesmo escrito no bilhete apresentado. Sim, sou eu. Agora tenho certeza de que estou no lugar certo.
6. A Mãe Terra acredita que, para fazer diferente, é preciso paixão. Está escrito no pacote de biscoitos. Frases motivacionais por todo lado.
7. Trilhas com pedaladas organizadas já são realidade no Brasil.
8. Aproveitar a viagem é comer bem em muitos lugares diferentes. Um bom sabor a gente não esquece!
9. Meu cachorro deve estar com problema de identidade. Batizado de Tardeli e de Zeluiz, simultaneamente, acabou sendo Zeluiz Tardeli. Nome e sobrenome. Hoje, posa para livros como Zorro, o cachorro.
10. Por falar em sabor, essa semana fiz um prato sempre igual, de forma diferente. A geladeira oferecia poucas iguarias, coxa e contra-coxa de frango, uma berinjela. E arroz. O frango foi temperado com ervas, por Ella, assado ao forno, com tiras de berinjela jogadas em cima. E o arroz? Usei manteiga de garrafa, cebolas, temperei com açafrão, pimenta do reino negra, manjericão e palmito. Diferente, colorido e delicioso.
11. “Quando o mar fica tenebroso e ninguém quer ir à praia é hora de surfar confortavelmente” – Rico de Souza, mestre surfista de sessenta e cinco anos.
12. Buscar e mostrar a verdade é uma metáfora da improbabilidade do jornalismo brasileiro. Verdade de quem, cara pálida?
13. A verdade, se existe, está nas ruas. E as ruas estão vazias! Onde estamos? Para onde vamos? Qual o caminho?
terça-feira, junho 13, 2017
CURTA 276
Entre todos meus anelos
o mais ardente,
momentaneamente,
seria a tesoura cortante
de maus pensamentos permanentes
que me assombram veladamente.
quinta-feira, maio 25, 2017
NOTAS DE LEITURA EM REVISTA DE BORDO 24
01. "Notas
de leitura em revistas de bordo" está de volta depois de alguns anos. Não são
releituras, são novas leituras. Sempre tem algo divertido e curioso para
relatar. O que as pessoas leem no ar? Quem quiser ler as anteriores navegue nesse blog.
02. Que
a vida é feita de escolhas, todos sabem. Mas todos podemos escolher as
aventuras em motos, carros e lugares bonitos e caros, em boa companhia? Quero a
receita, por favor!
03. Ser
bem sucedido é ter riqueza financeira ou riqueza intelectual? Não é reflexão, é
cópia mesmo de uma publicidade em revista de bordo. Qual sua resposta?
04. As
vacas urbanas viajantes estão de volta. Agora em São Paulo. Vacas na cidade são
arte. Na roça é mamífero leiteiro e futuro bife.
05. Hoje
tem estreia de filme com Nelson Xavier (Comeback), que faleceu antes desta
volta. Artistas também morrem, como meu amigo Chico (Francisco Magalhães), baita artista plástico de Beozonte, falecido precocemente.
06. Pode
haver conforto no caos urbano mesmo sabendo que a natureza é mais forte que a
arquitetura, diz Kengo Kuma.
07. Na
terra do sertanejo tem Bananada. Ainda bem, mano Zé.
08. Laertem-se
moçada. Agora tem trans no vôlei feminino do Brasil e do Mundo. Homofóbicos de
plantão, roam as unhas com essa. A vida também se transfigura, moçada.
09. Sempre
que me deparo com fotos sobre esse lugar amazonense, reafirmo: ainda viajo pelo
Rio Negro.
10. Muito
bom saber que já estive neste lugar onde foi tirada uma bela foto da revista. E
as minhas fotos ficaram tão boas quanto essa. No caso, Perito Moreno, em El
Calafate, na Patagônia Argentina.
11. Inhotim
é ali, um beicim de pertim. Onde caminho devagarim, cheirano capim e ispiano
os bichim. E ainda tem uns quadrim bunitim. E voo quinem passarim. Trem bão
assim só tomano um cachacim nos copim lagoim. (Nota do tradutor - beicim é medida de mineiro para distâncias curtas, ou seja, poucas léguas adiante).
quarta-feira, maio 03, 2017
“A JUBA É MINHA, PENTEIO SE QUISER!”
Penteies não.
Deixa que o vento despenteia,
desorganiza e reorganiza a bons ventos.
Deixa que o balanço do seu caminhar permita
o rebolado natural de seus cachos.
Colora-os da cor que teus sonhos imaginarem.
Imagina que eles sejam as cobras da medusa,
que tenham vida própria
e sonhem em voar como pássaros noturnos.
Cobras nem tem asas, teus cabelos tem.
E voam quando querem se deslocar pelos ares da alegria,
pelos corredores da felicidade,
pelas nascentes do quilombo,
sob as mangueiras e os jatobás.
E se eles insistirem em se alinhar com as vontades alheias,
despenteia-los com as mãos,
até que te desobedeçam no desalinho.
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