terça-feira, julho 28, 2020

RELEITURA ROSEANA 37


Lá onde o vento se sabe sozinho
Na cama daqueles pequenos desertos
Antecipo minha miúda palavra
Ciúme é mais custoso que amor:
deixa coração nos escuros, decerto.

Do ruim de dentro da gente
A gente quer são distâncias
Mas é o que a gente mais se alembra.
Do bom, se guardam as arrogâncias.

Ideias construídas fornecem paz
Saudades boas não nos envelhecem
E Nova Lima, onde cresci bem audaz
É um nome sagrado, bem antigo,
Onde pessoas sonham em lilás.

Viver é um descuido perseguido
De caminhos que não se acabam
Embaraçando passos, com realeza.
Tirar o instantâneo das coisas
É aproximar ao real da natureza.
O sertão é do tamanho de tudo.


RELEITURA ROSEANA 36

Posso prosear de ruim,
para mais de mim me valer:
são minhas escasseadas maluquices.
Sou apenas mais um maluco-beleza.
Meus feios passados se exalaram
Não foram mais que más-artes
Daqueles tempos de aprumação.
Hoje, se for para ter ódio,
Que seja ódio sossegado.
Não padeço nem de tristeza
Nem de desassossego de peão.

“Sertão: onde pensamento da gente
É mais forte que o poder do lugar”.
Nessas belezas sem mágoa
Pássaros calculam giro da lua.
Quando sonho, não mais sonho com mar.
Sonho comigo nesta rua.
Por esses longes eu caminhei
Com gente querida a meu lado
A gente se conhecendo bem
Se aprendendo com cuidado.

No suceder de toda duvidação
Verso em redondos e quadrados
Perto d’água eu sou mais feliz
Vivo meus sonhos em dobrado.
Eu e minha lua recolhida
Escutamos pássaros noturnos
Até que o dia me acolha, soturno,
E o sertão me dê guarida.

quarta-feira, maio 20, 2020

RELEITURA ROSEANAS 35


No aborrecido mundo
Se mata para ver careta
Transforma o rumo da alma
Se arrepende: não foi o capeta?

Em minhas reprovadas incertezas
Mesmo sem pecado de crime
O povo de agora me arrepia
Pelo conhecimento que me alumia.

Pois já vi de tudo nesse mundo
Até mesmo cavalo com soluço
Menina de coração imundo
Rimando amor com jagunço.

Sou caboclo sertanejo
Mal navego nas ideias
Aprendi a ler de solfejo
Virei lobo de alcateia.

Aquieto meu temer de consciência
Depois de muita reza brava
Meu olhar sem maledicência
Até onça nele mirava.

Mas, me solte uma ideia ligeira
Eu a rastreio no mato
Por uma morena faceira
O fogo em mim eu arrasto.

Qualquer sombra me refresca
Que a vida é provisória
Eu sossego minhas loucuras
No sertão, quem manda faz história.

quarta-feira, dezembro 04, 2019

CURTA 285

Seu arroz era de matar
mas ela era pura magia.
Eu a ensinei a cozinhar 
ela me ensinou bruxaria.
Troca justa.

quarta-feira, setembro 18, 2019

RELEITURAS ROSEANAS 34


Lá, no meio da travessia,
O real tira sombras de buracos
Assobia copiando pássaros
Assunta nos buritizais
Traz mais dúvidas que certezas.

Lá, no meio da travessia,
A vida não deixa benfeitorias
A morte se achega desmedida
Despedidas acalentam febres
Coisas acontecidas deixam rastros.

Lá, no meio da travessia,
Onde viver é um descuido
Apego-me a meu cajado
Desfaço-me das tristezas
Aguento firme o existir.

“Na vida, tudo cabe”.