sexta-feira, abril 04, 2025

VIA ANÔMALA

Tenho uma via anômala

no coração

Que só se fecharia

Com uma ablação

Preciso me queimar por dentro

Com fogo na ponta do cateter.

Só assim meu coração não dispara

Causando-me aflição.

 

Só me queimando por dentro

O coração não dispara

Que a coisa não fica feia

Adenosina que a ele diz: para

Para depois voltar ao normal.

terça-feira, abril 01, 2025

DECLARAÇÃO

 

Eu, abaixo assinado, físico com pretensões de poeta

(muita presunção de minha parte?)

com muitas contradições, mas algumas consistências essenciais,

declaro:

o que considero importante na vida

pode mudar de hoje para amanhã

ou mês que vem ou para o ano seguinte

(a escala de valores não se fixa no tempo).

 

E o importante hoje é simples:

um disco de jazz, ou o som de uma viola mineira,

ou a música de Liszt.

um passeio de bicicleta, uma boa e bela leitura,

um copo, à noite, de um Bordeaux,

um filme que não seja apenas de aventuras,

um livro de poesias,

e o amor da mulher escolhida.

Mas é exatamente o último valor

que torna os anteriores importantes nestes últimos tempos.

Isoladamente, não teriam a menor graça.



APENAS ISSO

Sorvete de abacaxi em dias de verão;

conhaque quente com canela em noites de inverno;

flores silvestres pintadas de luz em tardes de primavera;

pequenas folhas caídas ao vento em manhãs de outono.

Apenas isso quero ser.

Uma foto nua emoldurada na parede do quarto;

um cartão enviado pelo correio e preso no espelho;

um cheiro de corpos suados perdido nos lençóis

uma música solfejada nos lábios sem tocar no rádio.

Coisas fluidas como o amor preenchendo o vazio entre os cabelos.

Apenas isso.


terça-feira, março 04, 2025

VIOLETA

 

A Violeta nasceu

Desabrochou

Cresceu

Cantou,

Morreu.

Nunca murchou.

Sua voz se fez ouvir além das fronteiras do Chile.

Atravessou as paredes de minha casa

Morna

Suave

Sensual.

E acalenta minha filha Rafaela

Que se acalma e dorme.


(Homenagem a Violeta Parra, cantora chilena.

Matou-se no início do governo Pinochet).

CINEMA

A sombra organiza a imagem do nada

Concreto (ou imaginário) nada.

O nada (sombra) escreve a imagem na película

como sombras de um corpo sobrepõem outro corpo

vincam e musicalizam limites.

Música luz paixão

fúria ou suavidade.

Objetos em cena, enquadramentos

fragmentos de personalidades

seqüenciados em fotogramas

falso movimento

a vinte e quatro por segundo

perversão da realidade

indignação transgressão brincadeira.

Linguagem.

Arte da continuidade atropelada

Quantizada, congelada.

Marcas da individualidade do artista

e do observador

se entrelaçam na tela

em sala escura.

Luz câmara ação!

E solidificam-se sombras.

Nada!

domingo, março 31, 2024

A DANÇA DO CORPO

 

O corpo dança

Desce

Relança 

no espaço vazio

Da esperança

Que se transforma

Em abundância:

Um dia

O corpo dança

Se consome

Repensa

Na luz da candeia

Que se alumia

E se transforma

Em relevância:

Um dia

O corpo dança

E se lança

Absorve

O brilho da magia

Que se recria

E se transforma

Em criança:

Todo dia.

terça-feira, fevereiro 06, 2024

KADU COMBATE A DENGUE



Kadu vive em comunidade

Repleta de vários vizinhos

Alguns muitos amiguinhos

Coisa comum em sua idade.

 

Todo dia vai à escola

Levanta cedo e come

Não é bom sair com fome

Depois da aula joga bola.

 

Kadu foi convidado

Para trabalhar sem perrengue

Limpar o lote contra a dengue:

— Hoje não, é feriado.

 

Ele, de fato, mal sabia

Que a dengue é um perigo.

Foi brincar com um amigo

Coisa que faz todo dia.

 

Mas, acontece imprevisto

Seu pai ficou de cama,

Nem pode abraçar a dama

Ele que era tão benquisto.

 

Kadu se pôs a rezar

Pedindo a Nossa Senhora

Pois ele não vai embora

Enquanto seu pai não melhorar.

 

Parece que o pai melhorou

A mãe ficou bem feliz

Foi ela mesmo quem diz

Que o pior já passou.

 

Preste atenção meu menino

A dengue é um perigo

Faça aquilo que eu digo

Não brinque com o destino.

 

O menino levou a sério

Não negou mais ajuda

Chamou seu mano Duda

E foram estudar o mistério.

 

A dengue vem no mosquito

Aedes aegypti é seu nome

De sangue ele tem fome

Esse é seu grande delito.

 

O Aedes, esse danado

Bota seus ovos na água

Crescem larvas sem mágoa

Me deixando aperreado.

 

O que o guerreiro deve fazer?

Todo o terreiro limpar

Não deixar água acumular

O bicho não pode se esconder.

  

Mesmo com esse cuidado

Limpar o quintal não basta

A comunidade é muito vasta

Tudo nela é sagrado.

 

Foi aí que o pior aconteceu

Mano Duda, dengue hemorrágica,

Teve uma morte bem trágica

Coração de Kadu esmoreceu.

 

Mesmo com toda sua luta

Mano Duda foi-se, partiu,

Alma de Kadu quase fugiu

Sem coragem de nova labuta.

 

Mãe do menino foi logo dizendo

Esmorece agora não, guri.

Coração da gente é de rubi

E sempre continua batendo.

 

Depois de um dia inteiro chorar

Kadu sua cabeça endireitou

O mal que o mano matou

Aqui deve de todo se acabar.

 

Armou-se todo de coragem

Convidou seu melhor amigo

Quer vir agora comigo

Limpar nossa bela paisagem?

 

Colegas se juntaram no caminho

Cada um com sua vontade

Cada um com sua bondade

Agora, fazendo tudo certinho.

 

Passaram de casa em casa

Não caíram em tentação

Quando alguém dizia, essa não

Respondiam: sai, agora vaza.

 

O propósito da jornada

Não é só acabar com a dengue

É nos livrar de todo perrengue

E ganhar essa cruzada.

 

Para nenhum mosquito aparecer

Cuidar bem dos passarinhos

Ter árvores para seus ninhos

Todo mundo poder crescer.

 

Depois de tudo arrumado

Kadu pra casa voltou

Sua mãe, forte o abraçou

O guri dormiu, de tão cansado.

 

Mas a luta continua

O Aedes não é bobo

Vive em todo o globo

Não apenas em nossa rua.

 

Kadu não é mais o mesmo

Agora é rapaz maduro

Sabe que tem um futuro

Não corre mais a esmo.

 

Entende agora o significado

Mágico mesmo, da vida,

Carrega na alma a ferida

De perder um ente amado.

 

Mas não se faz de rogado

Encara de frente o perigo

Sem medo, cheio de amigo

Pode dormir sossegado.