quarta-feira, maio 19, 2021

RELEITURAS ROSEANAS 43

 

Eu queria era uma saudade

Daquele sertão, daquela beira de rio

Porque o rio está sempre lá

Embora nunca seja a mesma água

Ele quer sempre é chegar

Nas larguras e profundezas.

Quero dormir de cara para a lua cheia:

Tudo é preto no meio do luar

Preto e invisível quero ficar.

Vida é um conceito que a gente cria

Rastreando e medindo o mundo

A olhos e a cheiros de manhãs.

Todo dia é véspera e acontece,

Acontece por já estar pronto,

Mesmo sem a gente saber

Do amanhã, em nossos sonhos.

Em sonhos procuramos destinos

Pedimos que não nos atrapalhe

Contamos nossos segredos de viver

Nossa realidade, sem astúcias,

Nossas esperanças e desconsolos.

Na vida aprendemos, sempre,

A fazer nossas grandes perguntas

Ao rio que, em sussurros, nos responde:

É na alegria que se realiza.

Na alegria eu me levanto

Sabendo tudo que eu quero

Uma coisa somente eu diria

Quero apenas ser sempre eu.

E como o rio vou seguindo

Procurando larguras e profundezas.

RELEITURA ROSEANA 42

 

Aquele sossego presente nos silêncios:

Rastros, deixados por falas humanas

Nas carregadas brisas das manhãs,

Perturbam corações inquietos.

Não é, necessariamente, o silêncio

O elemento mais perturbador,

É a desesperança que o acompanha.

 

Territórios precisam de esperança

Para além de suas esquisitices,

Para além de suas tristezas interligadas.

Recordar, é o que sobra

De nosso entendimento das trivialidades.

 

RELEITURA ROSEANA 41

“O correr da vida embrulha tudo”.

Coragem. É o que Deus quer da gente?

Ficar alegre no meio da tristeza?

E sentir a dor dos sentidores?

Ah, esta vida desgarrada

No meio do bravo sertão,

Onde vou escrevendo em cores,

Meu coração em estado de moleza

E sons amotinados na doce canção.

 

Enquanto isso a morte, sem sutileza,

Se esvai nas raras fumaças dançáveis.

Acima das fogueiras do sertão.

E as moças morenas, em passeata,

Com cabelos pretos rebrilhados

Por óleo de umbuzeiro

E flores enfeitando espíritos

Vão bordeando a mata

Molhando os pés em suas veredas

 

E a cachaça vai tomando gosto

A cachaça vai tomando cor

Nas dornas de umburana dos alambiques.

Será servida nos acompanhamentos

E pelo sertanejo conduzida

Como pagamento de sua passagem

Na fronteira de outra vida.

terça-feira, julho 28, 2020

RELEITURA ROSEANA 40


O tempo de antes é o mesmo tempo de agora.
Tudo é agora. No tempo de minha existência.
Porque eu existo, aqui e agora.
O tempo só está nas histórias que conto
Quando, aos poucos, o escuro se torna claro
E o desconhecido define nossa busca e nossa existência.
Não há clareza naquilo que é tangível,
Onde não encontramos respostas,
Apenas novas perguntas.
Se não tivesse esse medo de errar
Possivelmente eu estaria a salvo.
Se pensasse menos e agisse mais
Eu teria escapulido.
E não teria o cansaço
Que faz tristeza em quem dela carece.
Um só é um quando sabe
De seu lugar no meio de todos.
Quando sua própria pessoa
Toma para si um valor enorme.
Quando se percebe que as perdas
São apenas experiências de uma existência
Atemporal, não linear, ao acaso.
Quando a gente começa a se sentir confortável
Em meio a todo aquele desconforto
Que faz seu coração crescer de lado,
Com todos os amores misturados
E nele tudo, de repente, cabe.
A vida acontece enquanto a gente se conhece.


RELEITURA ROSEANA 39


“O sertão é isso: tudo incerto, tudo certo”.
Meu amigo cantava coisas
E sombras plantadas em meu coração,
Dessombravam.
Amizade não é ajuste de dar e receber:
É jogar conversa fora
Em noites inchadas pelo luar
Pelo simples prazer de estar junto.
E, na beira do fogão,
Fazer uma comidinha guisada:
Um frango com quiabo e angu,
Ou farofa de ovo e verdura
Com um gole de cachaça
Antecipando os prazeres da conversa.

É quando as ideias escorrem até o peito
Pegajosas como mel de jataí.
De repente, a gente toma um gole de pensamento
E sai logo tramando proposições
Com feições de palavra pensada,
Grudenta, dada ou guardada,
Abrindo caminhos, rompendo trilhas.

Com o sol da manhã anunciando o dia
A gente vai logo tropeçando nas vontades
E parte para a luta, na rinha,
Planejada, ou surpreendida,
No rastro da palavra apreendida.

RELEITURA ROSEANA 38


Caminhava carregando meus escuros
Falando sem sobejo de esforços
E contava meus causos inventados,
Minhas artes que eu amo tanto:
Tudo são histórias de hoje e sempre.
Porque comigo não tem ontem e amanhã.
A gente vive é assim mesmo:
No desiludido e no desmisturado.

E foi ali naquela beira de rio
Bem no caminho do meio da correnteza
Que sobrevivi àqueles olhos.
E a doçura daquele olhar
Me fez ver as cores do mundo.
Minha sombra, que me acompanha,
Queria aquela novidade quieta
Para espantar meus tormentos
Para esconder meus desassossegos.
A luz dos olhos que ilumina veredas
Desamarrou desavenças encolhidas
Estancou e costurou feridas encalhadas.
A transformação desferida no encontro
É chama que assopra a vaidade
É amor que brota e cresce, de verdade.

RELEITURA ROSEANA 37


Lá onde o vento se sabe sozinho
Na cama daqueles pequenos desertos
Antecipo minha miúda palavra
Ciúme é mais custoso que amor:
deixa coração nos escuros, decerto.

Do ruim de dentro da gente
A gente quer são distâncias
Mas é o que a gente mais se alembra.
Do bom, se guardam as arrogâncias.

Ideias construídas fornecem paz
Saudades boas não nos envelhecem
E Nova Lima, onde cresci bem audaz
É um nome sagrado, bem antigo,
Onde pessoas sonham em lilás.

Viver é um descuido perseguido
De caminhos que não se acabam
Embaraçando passos, com realeza.
Tirar o instantâneo das coisas
É aproximar ao real da natureza.
O sertão é do tamanho de tudo.