segunda-feira, janeiro 29, 2007

Primeira Lembrança


Primeira lembrança
de minha existência:
correndo de avião,
na frente do avião.
Dois anos e meio
família passeava no aeroporto
cidade de interior norte de Minas
quando se podia passear pelas pistas
pequeno avião resolve pousar
na pista de passeio da família:
correria.
Lá vem o avião para cima de nós.

Comecei a viver
(tempo da memória instalada,
eu lembrando de mim mesmo)
querendo jogar pedra no avião.
Pedras e aviões se eternizam
no universo material de minhas imaginações.




segunda-feira, janeiro 22, 2007

Verdades

Verdades cheiram
A flores em queda no outono
Perdem-se no chão
Varridas para canteiros de jardins
Viram adubos
Apodrecem
São esquecidas.
Renascem em flores na primavera
Outras cores
Outros odores
Florescem versões
Releituras de fatos acontecidos
Na estação anterior
Re-passados a limpo
Re-contados
Novas verdades
Nascidas nas sombras
Das mesmas árvores
Novas folhas
Pequenas luzes em nossas memórias
Estórias
Novos enredos
Roteiros de uma peça antiga
Cantada nos palcos
Verdades se renovam
Necessário vivê-las e revivê-las
Dramatizá-las
E cobrir lacunas
De nossa existência.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Na terra do João




Na terra do João Guimarães
rosas inspiram
transpiram
suspiram
entre causos
e brotam
entre os seios
das moças.




Valências



Nem todas as carências
nem todas as ardências
nem tanto quais prudências
servir na mesa do café das aparências.

Mas... as urgências
sobrepujam minhas proeminências
rastejam entre minhas vivências
sacodem minhas premências
soletram minhas redundâncias.

Para onde envio, sem ganâncias,
minhas rudes malevolências?


sábado, dezembro 23, 2006

Homens, Mulheres


Carros nas ruas largas
nas horas estreitas
nas casas de telhas dobradas
sob o sol a pino.
Meio dia.
Um dia e meio
ocupou-me essa viagem
aos olhares barrocos
esquinas ouropretanas
de Barro Preto a Ouro Preto
caminhos de asfalto
e pedras
e montanhas
e riachos velhos
e moças novas nas estradas
umbigos à mostra.

Os pretos de Ouro Preto
nem são pretos.
Os brancos de Ouro Branco
nem são brancos
os pardos de Rio Pardo
nem são pardos.
Os vermelhos de Ribeirão Vermelho
nem são vermelhos.
Os bonitos de Riberão Bonito
nem são bonitos.
Mas os homens (e as mulheres)
da Terra dos Homens (e das Mulheres)
são todos homens (e mulheres)
pretos, pretas
brancos, brancas
pardos, pardas
vermelhos, vermelhas
bonitos, bonitas
Homens, Mulheres.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Cansaço da poesia


Uma de minhas poetas preferidas cansou de ser poeta;
Malcriação de criança,
Darei uma resposta apenas.
Não serei delicado
Nem curto
Nem grosso.

Tu não tens mais o poder de decidir
Entre ser ou não ser poeta.
Cansada ou não tu ÉS poeta.
Todos que te acompanham
Em teu blogfúndio já definiram
Rotularam
Mediram
Se emocionaram com teus escritos:
Tu És poeta. E das boas.
E todas as emoções que eu tive,
jogo-as onde?
E todas as frases que te dediquei em resposta,
apago-as?
E todas as vezes que te amei entre linhas e letras,
sublimo-as?
Crises passam.
Eu fiquei dez anos sem escrever linha.
De repente, um olhar e um sorriso
(e um beijo) de uma certa mulher (outra):
Recordei que escrever é necessidade básica,
Fruição exigida pelas minhas vozes interiores.
Escrever é exercício de sanidade.
Portanto, escreva.
Mas se não tiver mesmo vontade
Dê um tempo
Até tuas inquietações se domarem.

Pode me xingar de poeta


Quando alguém quiser me xingar
pode me chamar de poeta:
ou vagabundo
ou idiota letrado
ou mercador de prosopopéias
ou batráquio de palavras
ou empacotador de metáforas
ou escritor de frases sem nexo nem plexo
ou amante de divas da verborréia
ou sonhador de inconveniências
ou filósofo de adegas envinagradas
ou escrutinador de pleitos impossíveis.

Tanto faz
dá tudo no mesmo.

Mas o que eu sou de fato?
Criador de calangos
colecionador virtual de assobios de pássaros livres
observador das fendas do cotidiano.

Preguiçoso nato.
Trabalho apenas para manutenção do ócio.