domingo, setembro 17, 2006

Fogo das reminiscências



Guerra surda
Travamos com nós mesmos
Nosso íntimo
Nossa pele curtida
Rugosidades provocadas pelos sóis
E ventos norte e noroeste.
[Aqui no sul, dizem, são ventos perigosos]
Meu governo de mim foucaultiano
perde seus espaços
pelo governo antidemocrático dos outros.
Que poderes tenho
Para polir as arestas
Destas armas e armadilhas
Articuladas nos jogos de outros poderes
Sobre os quais meu discurso de bom moço
Não cola nem descola?
Mudar os discurso?
Construir narrativas engajadas?
Fazer campanha para voto nulo?
Tornar-me apolítico?
Deixar crescer os cabelos
Como nos tempos do psicodelismo itinerante?
Indigo blues são vendidos em hiperlojas
Rock’n roll progressivo quase não toca mais na rádio
(as que tocavam fecharam sem nos consultar).
Estradas são muito perigosas hoje.
Evolução não nos deixa ter saudades
Melhor entrar de vez na era da tecnologia
E da informação
Nossa memória também é banco de dados
Armazenados para quando tomarmos um vinho
Diante do fogo das reminiscências.

sábado, setembro 09, 2006

Marte em Libra


Marte em Libra
Má pontaria na rotina.
Comecei o dia de porre
Não etílico
Basílico
Hesitativo
Pendurativo.
Vontade ficou na cama
Minha sombra desceu as escadas do quarto.
Sonâmbulo e meditativo
Curto o sol de setembro
Espero pela primavera
Observando vai-vem de calangos
Do jardim de cactos.

Quem sabe ELA

(a primavera?)
Chegue antes da chuva
Com seu alento
Soprado no vento
Como música lenta
Boa de dançar abraçadinho.

Hoje não quero pensar em nada

Fazer nada
Falar nada
Nem sorrir nem chorar
Manter os olhos abertos basta
Antenas da observação ligadas,
Suficiente.
Contento-me com a nota de rodapé
Com o pé de página da história
Deste Sábado ensolarado.

Hoje quero ser ingênuo,

Falar de amor como lema
De construção da civilização
Saudável, crítica, sem violência.
Ingenuidade não basta para distanciamentos
De mim mesmo.

Não sou triste nem pessimista:

Estou de porre a-criativo
A-amoroso
A-sexual.
Acalento a idéia da virada histórica
De todos os símbolos.

Que venha, Marte,

Dar sua volta em todos os signos.
Que venha para Touro,
Novamente.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Versos e reversos


Hoje tentei fazer tudo certo
Pinguei todos os is e até os jotas
Craseei os às corretamente
Coloquei vírgulas e ponto-vírgulas
nos bons lugares.
Segui as regras
Escrevi certo em linhas retas
Floreei alguns versos
Melodramei outros
Enxuguei frases molhadas
Reguei palavras secas
Mas nada saiu como previsto.

O texto saiu queimado do forno
O verso por demais apimentado
A estrofe ficou aguada
Não consegui beber a poesia socialmente:
embriaguei-me.
Troquei as chaves da frase explícita
Entrei pela janela do conto fantástico
Dormi no sofá da crônica enluarada.
Acordei com ressaca de romance policial.
Mas tenho no bolso um beijo
comprado na padaria da esquina.

Do cosmo ao caos



Do cosmo ao caos
viajo continuamente
através da poesia-elementos
de minha bagagem
mala de viagem
rumo ao frio das apresentações
em outros planetas
(onde se apresentam recitais
em praça pública).
Sensores de calango
avisam o perigo imininente.
Vou ao cosmo pedir proteção,
desço ao caos buscar pingos de vida
sem temores
pleno de amores-elementos
de minha outra bagagem
mala de viagem
rumo ao calor dos aplausos.


quarta-feira, setembro 06, 2006

eclipses e sofismas


Eclipse lunar
fragiliza piscianos
aviva questionamentos
agita
enerva
produz insônia
torna impossível a espera do amanhecer.

Levanto-me como lobisomem

caminho pelas ruelas tortas
de bairros periféricos belohorizontinos
assusto transeuntes.

Prefiro aconchegar-me no interior dos muros de pedra.

Companhia dos calangos
traz harmonia.

Passa o eclipse

(ainda bem, não são duradouros)
fantasmas desaparecem
mundo volta ao normal.
Tudo são sofismas
grandes cismas
das relações humanas.

domingo, setembro 03, 2006

Mulheres botões de rosas


Algumas mulheres são como botões de rosa
quando desabrocham
ou quando desfolham.
Nunca são flores naqueles momentos de calma,
de observação compenetrada,
quando amamos simplesmente o cheiro,
a cor,
a doçura,
a leveza,
o balanço ao vento.
Têm estes momentos também,
mas são,
principalmente,
movimento:
chegada ou saída;
para o alto ou para baixo;
brisa ou vendaval;
cumulus ou nimbus;
jazz ou chorinho;
comédia ou terror;
silêncio ou burburinho;
beijos ou mordidas;
gritos ou sussurros.
Ainda bem que gosto de cuidar de flores.
Desde quando nascem
até quando viram adubos.

Olhar em cacos


Cristal jogado ao chão se parte
em mil pedaços irrecuperáveis.
Cristalino dos olhos quebra igual.
Tentativas de recomposições do olhar
aumenta ou diminui astigmatismos.
Mas não deforma as formas nem as imagens
da mulher que queremos.
Apenas a vemos diferente
mas a queremos talvez mais.
É o olhar que se quebra
não a imagem.
Esta se recola em fragemtos
no fundo da retina.